Perífrase é a figura de palavras que substitui o nome direto de uma pessoa, lugar, obra ou objeto por uma expressão que o descreve, caracteriza ou identifica indiretamente. Muito cobrada em concursos públicos e no ENEM, a perífrase aparece ao lado de figuras como metáfora, comparação e metonímia em questões de interpretação textual e análise semântica. A professora Letícia Góes explica como reconhecer esse recurso com exemplos da literatura, da música popular brasileira e do cotidiano, além de mostrar as diferenças entre perífrase, metáfora e metonímia, temas recorrentes nas principais bancas examinadoras.
Perífrase: substituição do nome por uma expressão descritiva
Perífrase é a figura de linguagem que consiste em substituir o nome direto de algo por uma expressão que o descreve ou caracteriza. Em vez de nomear diretamente, o falante constrói uma expressão que permite ao ouvinte ou leitor identificar o referente indiretamente. A perífrase é amplamente usada tanto na linguagem cotidiana quanto na literatura e nas músicas populares brasileiras.
Exemplos clássicos de perífrase em uso cotidiano:
- “O Rei do Baião” em vez de Luiz Gonzaga
- “A Cidade Maravilhosa” em vez de Rio de Janeiro
- “O Santo Padre” em vez do Papa
- “O Poeta dos Escravos” em vez de Castro Alves
- “A Terra da Garoa” em vez de São Paulo
Em cada caso, a expressão descritiva não é apenas uma alternativa ao nome, ela carrega informações que caracterizam e qualificam o referente, muitas vezes com carga afetiva ou histórica. “O Rei do Baião” não apenas nomeia Luiz Gonzaga: afirma sua posição de liderança e excelência no gênero musical. A perífrase, portanto, é um recurso que agrega sentido ao nomear.
Como identificar uma perífrase em um texto
O processo de identificação da perífrase envolve três passos:
- Identificar a expressão indireta: localizar uma expressão que não nomeia diretamente o referente, mas o descreve ou caracteriza.
- Verificar se há um nome direto equivalente: perguntar “qual seria o nome simples que esta expressão substitui?”
- Confirmar a substituição intencional: a perífrase pressupõe que o nome direto existe, mas o autor optou pela expressão descritiva por efeito estilístico, afetivo ou enfático.
Em questões de banca, a perífrase costuma aparecer em trechos literários ou musicais em que um personagem, lugar, artista ou conceito é referido por uma expressão em vez do nome. O candidato deve reconhecer que a expressão funciona como substituto do nome e nomear essa substituição como perífrase.
Exemplos em músicas e literatura
A literatura brasileira e a música popular oferecem exemplos ricos de perífrase:
- Em “Sublime Renúncia” de Noel Rosa, a amada não é nomeada diretamente, ela é descrita por suas ações e qualidades, construindo uma perífrase afetiva ao longo de toda a música.
- Na MPB, é comum referir-se a Adoniran Barbosa como “o poeta do Bexiga”, construindo uma perífrase que identifica tanto o artista quanto seu vínculo com o bairro paulistano.
- Em textos jornalísticos sobre esporte, “o Rei do Futebol” é perífrase reconhecida para Pelé, e “a Rainha do Rodeio” foi usada para identificar várias cantoras do gênero sertanejo ao longo dos anos.
Na literatura clássica, perífrase é recurso frequente em poemas épicos: Camões usa perífrase ao referir-se a Roma como “a grande cidade que construiu o mundo” em vez de nomeá-la diretamente, o recurso cria solenidade e destaque.
Distinção entre perífrase, metáfora e metonímia
| Figura | Mecanismo | Exemplo | Diferença central |
|---|---|---|---|
| Perífrase | Substitui o nome por expressão descritiva | “O Rei do Baião” = Luiz Gonzaga | Descreve para nomear |
| Metáfora | Comparação implícita, diz que A é B | “O mundo é um moinho” (Cartola) | Compara por semelhança |
| Metonímia | Usa uma palavra por outra por relação lógica | “Coca-cola” por qualquer refrigerante | Relação real de contiguidade |
| Comparação | Aproxima dois elementos com conector explícito | “Quero ficar no teu corpo feito tatuagem” | Usa conector “como”, “feito”, “que nem” |
A confusão mais comum é entre perífrase e metonímia. Na metonímia, a palavra substituída e a palavra substituta têm uma relação lógica direta: a parte representa o todo, a marca representa o produto, o continente representa o conteúdo. Na perífrase, a expressão substituta descreve e caracteriza o referente, ela funciona como uma definição indireta, não como uma relação lógica de contiguidade.
Outro ponto de confusão é entre perífrase e metáfora. A metáfora afirma que um elemento é outro por semelhança, “o mundo é um moinho” compara o mundo a um moinho pela ideia de triturar esperanças. A perífrase simplesmente substitui o nome por uma descrição, “O Rei do Baião” descreve Luiz Gonzaga sem construir uma comparação por semelhança.
Comparação e metáfora: as figuras que mais confundem com perífrase
A professora Letícia dedica atenção especial à distinção entre comparação e metáfora na segunda aula de figuras de linguagem, pois essas duas figuras frequentemente se confundem entre si e com a perífrase em questões de concurso.
“A comparação é quando eu pego dois elementos e comparo esses dois elementos. E a diferença maior entre comparação e metáfora é que, na comparação, essa comparação é explícita.” [01:23], Professora Letícia
Na comparação, o conector está presente: “feito”, “como”, “que nem”, “igual”. Em “Quero ficar no teu corpo feito tatuagem”, a palavra “feito” sinaliza a comparação explícita. Na metáfora, o conector desaparece: “Você é luz, é raio, estrela e luar”, o sujeito não é comparado à luz, é declarado como luz. A metáfora afirma; a comparação aproxima.
A perífrase difere das duas: ela não compara nem declara equivalência, ela descreve para identificar. “O Poeta dos Escravos” não diz que Castro Alves é parecido com um poeta de escravos (comparação), nem que ele É um poeta (metáfora), ela o identifica por uma característica que o define.
Metonímia: as relações lógicas que as bancas mais cobram
A metonímia, frequentemente apresentada junto à perífrase em questões de concurso, opera por relações lógicas de contiguidade. A professora Letícia apresenta os principais tipos:
- Parte pelo todo: “Se o caso for de ir à praia, eu levo essa casa numa sacola”, “casa” representa os pertences da casa.
- Marca pelo produto: “Eu tomo uma coca-cola”, a marca substitui o produto genérico (refrigerante).
- Autor pela obra: “Estou lendo um Neruda”, o nome do autor substitui o livro do autor.
- Continente pelo conteúdo: “Esquentar o prato” em vez de “esquentar a comida do prato”.
Metonímias do cotidiano são tão incorporadas à língua que muitos falantes nem as percebem como figura: “gilete” por qualquer lâmina de barbear, “bombril” por qualquer esponja de aço, “band-aid” por qualquer curativo adesivo. Em concursos, o candidato deve reconhecer essas substituições e identificar o tipo de relação lógica que as fundamenta.
Como as bancas cobram perífrase, metáfora e metonímia
O CEBRASPE apresenta trechos literários ou musicais e pede ao candidato que identifique a figura de linguagem presente. Os formatos mais frequentes:
- Identificação direta: “A expressão X no trecho corresponde a qual figura de linguagem?”
- Distinção entre figuras: “O uso de ‘coca-cola’ no trecho configura metonímia do tipo marca pelo produto, certo ou errado?”
- Efeito de sentido: “A perífrase ‘O Rei do Baião’ contribui de que forma para o sentido do texto?”
A FGV costuma explorar metonímia e perífrase em questões de semântica, apresentando expressões do cotidiano e pedindo que o candidato classifique o tipo de relação semântica envolvida.
Erros e pegadinhas de banca
- Confundir perífrase com metáfora: a perífrase descreve para nomear; a metáfora compara por semelhança sem conector. “O Rei do Baião” é perífrase, não metáfora, não afirma que Gonzaga é parecido com um rei, mas o identifica por uma posição de excelência no gênero.
- Não reconhecer metonímia em expressões cotidianas: “bombril”, “gilete” e “band-aid” são metonímias de marca pelo produto tão incorporadas que parecem nomes comuns, a banca espera que o candidato as identifique como metonímia.
- Exigir o verbo “ser” para identificar metáfora: a metáfora pode ser construída por contexto sem o verbo “ser”. “O mundo é um moinho” tem o verbo explícito; em “ele me traiu, cobra criada em casa”, a metáfora está construída contextualmente.
- Achar que cada trecho pode ter apenas uma figura: um mesmo verso pode conter metonímia e personificação simultaneamente. “Meu coração está radiante, bate feliz” é personificação (atribuição de felicidade ao coração) e também metonímia (o coração como parte que representa o todo, o sujeito).
Questão de banca, pratique
(Estilo CEBRASPE) Analise o trecho:
“O Bruxo do Cosme Velho publicou seus primeiros contos no Jornal das Famílias antes de revolucionar a literatura brasileira.”
Sobre as figuras de linguagem presentes, assinale a alternativa correta:
a) “O Bruxo do Cosme Velho” é uma metáfora que compara o escritor a um praticante de bruxaria.
b) “O Bruxo do Cosme Velho” é uma perífrase que substitui o nome do escritor Machado de Assis por expressão descritiva.
c) “O Bruxo do Cosme Velho” é uma metonímia do tipo autor pela obra, pois representa a produção literária do escritor.
d) “O Bruxo do Cosme Velho” é uma comparação implícita entre o escritor e a figura mítica do bruxo.
e) “O Bruxo do Cosme Velho” é um eufemismo usado para suavizar a referência ao escritor.
Gabarito e Comentário
Resposta: B
“O Bruxo do Cosme Velho” é o apelido literário de Machado de Assis, derivado de sua habilidade narrativa considerada quase mágica e de seu endereço no bairro carioca do Cosme Velho. A expressão substitui o nome “Machado de Assis” por uma descrição indireta que o identifica e o caracteriza, essa é a definição precisa de perífrase. A alternativa A está errada porque metáfora pressupõe comparação por semelhança, e aqui não há comparação, há substituição do nome por descrição. A alternativa C está errada porque metonímia do tipo autor pela obra seria usar “Machado de Assis” para se referir a um livro seu, não o contrário. As alternativas D e E estão claramente incorretas.
O que é perífrase na língua portuguesa?
Perífrase é a figura de linguagem que consiste em substituir o nome direto de algo ou alguém por uma expressão que o descreve ou o caracteriza. Em vez de nomear diretamente, o falante ou escritor constrói uma expressão indireta que permite ao receptor identificar o referente por suas características. Exemplos clássicos: “O Rei do Baião” para Luiz Gonzaga, “A Cidade Maravilhosa” para o Rio de Janeiro, “O Bruxo do Cosme Velho” para Machado de Assis. A perífrase é amplamente usada em jornalismo, literatura, música e na linguagem cotidiana para criar ênfase, afeto ou solenidade ao referir-se a alguém ou algo.
Qual é a diferença entre perífrase e metáfora?
A perífrase substitui o nome por uma expressão descritiva que identifica o referente, ela nomeia indiretamente. A metáfora faz uma comparação implícita: afirma que um elemento é outro por semelhança, sem usar conectores como “como” ou “feito”. “O Rei do Baião” é perífrase: descreve Luiz Gonzaga por sua posição no gênero musical, sem compará-lo a algo. “O mundo é um moinho” é metáfora: afirma que o mundo é como um moinho que tritura sonhos, construindo uma comparação por semelhança. Em concursos, a distinção entre as duas figuras é cobrada com frequência, e o critério principal é a função: a perífrase nomeia por descrição; a metáfora compara por semelhança.
Como diferenciar metonímia de perífrase em uma questão de concurso?
A metonímia opera por uma relação lógica de contiguidade real: a parte representa o todo, a marca representa o produto, o autor representa a obra, o continente representa o conteúdo. A perífrase opera por descrição: uma expressão substitui o nome direto caracterizando o referente. Use “bombril” para esponja de aço, isso é metonímia de marca pelo produto, pois há uma relação lógica real entre a marca e o produto. Use “O Poeta dos Escravos” para Castro Alves, isso é perífrase, pois a expressão descreve e identifica o poeta por uma característica sua. Se a substituição se baseia em uma relação lógica de parte/todo ou marca/produto, é metonímia. Se se baseia em uma descrição que substitui o nome, é perífrase.
Qual a diferença entre comparação e metáfora?
A comparação usa um conector explícito para aproximar dois elementos: “como”, “feito”, “que nem”, “igual”. A metáfora dispensa o conector e afirma diretamente que um elemento é o outro. “Quero ficar no teu corpo feito tatuagem”, a palavra “feito” sinaliza a comparação explícita. “Você é luz, é raio, estrela e luar”, não há conector; o sujeito é declarado como luz diretamente. Essa diferença de presença ou ausência do conector é o critério central para distinguir as duas figuras em questões de concurso. Bancas como o CEBRASPE frequentemente apresentam trechos e pedem ao candidato que justifique por que o trecho é comparação e não metáfora, esperando que ele identifique o conector explícito.
Como a personificação é cobrada junto com a metonímia em provas?
Personificação (ou prosopopeia) é a atribuição de características humanas a seres não humanos ou inanimados. Metonímia é o uso de uma palavra no lugar de outra por relação lógica. As bancas exploram a coexistência das duas figuras em um mesmo trecho: “Meu coração está radiante, bate feliz” pode ser lido como personificação (atribuir felicidade ao coração, característica humana) e como metonímia (o coração como parte que representa o sujeito inteiro). Em provas, a questão pode pedir que o candidato identifique todas as figuras presentes em um trecho, e a resposta pode incluir mais de uma figura. O candidato deve estar preparado para reconhecer que figuras não se excluem e que um mesmo trecho pode conter múltiplos recursos simultaneamente.